O LEGADO DA MINHA CASA
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O LEGADO DA MINHA CASA
por ANDERSON DOS SANTOS
A fábrica, o divã e a mesa da família Eu me lembro do som das máquinas antes de muitas frases. O ruído contínuo, metá- lico, insistente, parecia dizer que tudo precisava funcionar: cada setor com seu ritmo, cada pessoa com sua função, cada decisão carregando custo, prazo, cobrança e con- sequência. Estudei gestão, vivi operações, liderei equipes e aprendi a respeitar proces- sos, indicadores e produção. Com o tempo, uma verdade ganhou nitidez: nenhuma en- grenagem trabalha bem quando quem a conduz está quebrado por dentro. No ambiente de metas e relatórios, eu via cansaço escondido, líderes susten- tando postura enquanto enfrentavam conflitos familiares e colaboradores tentando produzir com a mente exausta. Pessoas competentes perdiam brilho; profissionais preparados decidiam sob ansiedade, culpa ou medo; alguns tratavam colegas com du- reza porque não conseguiam conversar em casa. A empresa mostrava sintomas de his- tórias que começavam muito antes do expediente. Essa percepção seguiu comigo em reuniões, treinamentos, palestras, atendi- mentos, estudos e mentorias. Com a escuta psicanalítica, passei a perceber o ser hu- mano sem reduzi-lo à atitude imediata. A fábrica me ensinara a observar comporta- mento; o divã revelou raízes. A agressividade podia proteger uma dor antiga. A frieza podia ter sido aprendida como defesa. O aparente desinteresse, em certos casos, es- condia alguém tomado por ansiedade ou medo, já sem recursos internos para susten- tar presença. No ambiente corporativo, medimos desempenho, corrigimos falhas, ajustamos processos e cobramos entregas. Tudo isso tem valor. A dificuldade começa quando a pessoa desaparece atrás da função. A cobrança pesa, a meta ameaça e o ambiente se enche de gente protegida por máscaras. Há quem vista a camisa da empresa durante o dia e, à noite, mal consiga reconhecer o próprio cansaço.